PORTO SEGURO — A crise no Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães (HRDLEM) ganhou um novo e drástico capítulo. Após o corpo clínico anunciar uma paralisação parcial por falta de salários e expor condições precárias na unidade — que incluem a escassez de insumos básicos e até de água potável —, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) notificou o Instituto Setes para o distrato do contrato de gestão do hospital.
A decisão do governo estadual foi motivada por relatórios técnicos que apontaram graves inconformidades assistenciais, operacionais e administrativas na condução da unidade, que é referência em média e alta complexidade para toda a Costa do Descobrimento.
Na manhã da última terça-feira (2), cerca de 30 médicos realizaram um protesto pacífico em frente ao hospital. Vestidos de preto e de mãos dadas, os profissionais denunciaram publicamente o atraso superior a 60 dias no pagamento de seus honorários. A categoria classificou a situação como “insustentável” após sucessivas tentativas frustradas de negociação com a gerência.
Um documento detalhando o cenário foi encaminhado ao Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) e ao Sindicato dos Médicos da Bahia (Sindimed-BA), alertando para o risco iminente à assistência da população.
Como reflexo, uma paralisação parcial por tempo indeterminado está agendada para começar nesta sexta-feira (5 de junho).
A crise financeira caminha lado a lado com a deterioração estrutural da unidade. O corpo clínico denuncia a falta crônica de materiais médico-hospitalares básicos e a indisponibilidade prolongada de exames essenciais, como tomografia e ecocardiograma, o que tem forçado o adiamento de cirurgias e comprometido tratamentos.
A situação atinge níveis críticos de dignidade humana. Relatórios da Vigilância Sanitária já haviam alertado sobre problemas na qualidade da água do hospital. Na rotina atual, a escassez do recurso é visível.
“Estou com meu marido desde as 7h da manhã e tive que sair para comprar água porque aqui não tem”, desabafou, sob anonimato, a esposa de um paciente internado.
Enquanto o HRDLEM opera no limite, o cenário político local ferve. O Governo do Estado atribui o estrangulamento da unidade à alta demanda enviada pelas prefeituras da Costa do Descobrimento. Prefeitos vizinhos rebatem as acusações e, diante do colapso em Porto Seguro, começaram a redirecionar pacientes para os hospitais regionais de Teixeira de Freitas e Ilhéus.
Essa medida, embora alivie o hospital de Porto Seguro, cria novos problemas para os municípios da região:
Para garantir a continuidade dos serviços durante a saída do Instituto Setes, a Sesab anunciou a criação de duas comissões permanentes: uma de monitoramento e outra de transição. Os grupos serão responsáveis por fiscalizar a operação do hospital, avaliar medidas emergenciais e garantir que o atendimento à população não seja interrompido.
Até o fechamento desta reportagem, nem a Sesab e nem o Instituto Setes haviam se pronunciado oficialmente sobre o cronograma de pagamento dos salários atrasados dos médicos ou sobre as ações imediatas para sanar a falta de insumos e água na unidade.